O que a motivou a retratar a maternidade na prisão? Como conheceu o Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP)?
O que me motivou a fazer este filme foi a minha experiência com a maternidade, após o nascimento do meu filho Pedro. Tive vontade de entender como essa experiência poderia acontecer em uma situação limite, tanto emocional quanto física. Quem me apresentou a instituição foi a Heide da Pastoral Carcerária.
No que “Leite e Ferro” se difere de outros filmes que abordam o tema maternidade e presidiárias?
Acho que “Leite e Ferro” é um filme sobre mães em uma situação ímpar. O foco do filme é a maternidade, mas seria impossível não falar também da instituição. Acho que o diferencial de todos os filmes é o olhar do diretor.
Como foi a pesquisa para realizar o documentário? Quanto tempo do inicio das filmagens até a finalização?
A pesquisa é fundamental nos meus trabalhos, começo sempre com uma investigação teórica e depois vou para campo. Eu e a Lorena Delia (pesquisadora e produtora) ficamos dois meses freqüentando a instituição. Num primeiro momento conversamos com cada uma das mulheres presas separadamente e depois passávamos o dia com elas na cadeia. Fizemos a filmagem em um mês. A pesquisa e filmagem foram feitas em 2007. Depois do filme pronto participamos de festivais nacionais e internacionais.
As personagens ficam à vontade para contar suas histórias no documentário, por mais chocantes que sejam. Como se deu essa sintonia com as mães para que houvesse tanto conforto em se expor frente à câmera?
Acho que o tempo que passei com elas – os dois meses de pesquisa – foi fundamental para a construção de uma intimidade. A opção em fazer “rodas de conversa” também contribuiu muito para a espontaneidade das mulheres.
O filme traz depoimentos de mulheres com personalidades bem diferentes, mas com histórias bem parecidas. Quais foram os critérios usados para a escolha dos personagens?
A primeira pessoa que entrevistei durante a pesquisa foi a “Daluana”, fiz duas perguntas e ela falou por duas horas…. tive certeza que estava diante de alguém especial para o documentário. As outras personagens também foram escolhidas neste processo. O importante era detectar pessoas dispostas a falar livremente sobre a experiência da maternidade no cárcere.
Como foi a experiência de estar em contato com a realidade dessas detentas durante as de filmagem?
Foi muito difícil, tive que encarar muitos monstros internos. Cheguei ao limite de me sentir culpada por estar em liberdade e elas não, porque isso não é um detalhe, estar encarcerada muda tudo na vida de alguém.
Poderia nos contar um pouco sobre essas mulheres em particular? Em sua opinião por que a “personagem” Daluana se destaca e acaba conduzindo o documentário?
A “Daluana” me encantou. Além do carisma tem uma história de vida incrível, ela faz parte de uma geração “romântica” da bandidagem, roubava de quem tinha e era chamada de tia Hobin Hood. Um dia ela me falou que jamais assaltaria um velhinho saindo do banco com seu dinhero da aposentadoria e que não entendia este tipo de crime.
Mesmo com realidades tão diferentes, em algum momento a sua história ou experiências se identificaram com a delas?
Me identifiquei muito com elas, acredito que temos muito em comum e por isso foi difícil fazer este documentário.
Alguns depoimentos do filme, em determinadas cenas, são registrados com uma intimidade de roda de amigas. Quais os desafios de filmar neste formado? Você teve que intervir em algum momento para todas não falarem a o mesmo tempo?
A proposta era que eu desse um tema e elas falassem livremente. Colocamos a mulherada em grupo e não tinha como impedir que uma falasse em cima da outra, acredito que estas rodas enriqueceram o filme. Cada uma tinha uma história melhor que a outra para contar, é como em uma mesa de bar.
Como você vê a relação destas mães presas com seus filhos? È diferente das mães em “liberdade”?
A liberdade é a diferença em qualquer coisa na vida.
Qual o depoimento que mais te emocionou?
Passei a maior parte do tempo emocionada… mas a “Daluana” foi a pessoa que mais me tocou por isso “roubou” o filme.
Esse é o seu terceiro documentário e o primeiro no formato longa-metragem. Por que optou pelo documental e não ficção?
A ideia sempre foi fazer um documentário sobre o assunto, nunca imaginei fazer uma ficção. “Leite e Ferro” foi concebido como um documentário. Meus curtas falam sobre sexualidade e mulher, me sinto a vontade tratando de assuntos femininos, assuntos do meu universo.
Esta não é a primeira vez que você trabalha com Kiko Goifman. Fale um pouco desta parceria.
Eu e Kiko somos casados e trabalhamos juntos há dez anos, ele é meu parceiro na vida. Além do trabalho, falamos sobre projetos e filmes o tempo todo. Temos uma vida onde trabalho e vida pessoal se confundem, porque temos prazer na profissão.
Quais são seus projetos futuros?
Eu e Kiko dividimos a direção do longa “Olhe Pra Mim de Novo” que está sendo exibido em festivais e foi selecionado para o Panorama do festival de Berlim de 2011. Além disso, vou dirigir um curta ficção com Pedro Marques (que fez fotografia e montagem do “leite e Ferro”) com o cartunista Laerte.
”Leite e Ferro” estreia nos cinemas dia 25 de novembro de 2011.



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