“Leite e Ferro” na Revista Crescer

Amamentação na prisão é tema de documentário

 Leite e Ferro mostra histórias, dificuldades e alegrias (sim, elas existem!) de prisioneiras que amamentam seus bebês atrás das gradesFernanda Carpegiani

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Apesar de serem completamente inocentes, alguns bebês passam os primeiros quatro meses de vida na prisão. Pode parecer cruel, mas é exatamente o contrário: esse é o tempo que eles ficam sob os cuidados de suas mães, criminosas condenadas que recebem o direito de amamentar e cuidar de seus recém-nascidos durante este período. Algumas dessas histórias estão no documentário Leite e Ferro, da diretora Claudia Priscilla, que estreia dia 25 de novembro nos cinemas de São Paulo e Porto Alegre e dia 2 de dezembro no Rio de Janeiro.

Premiado no Festival de Paulínia em 2010 e no Festival Internacional de Cinema Feminino em 2011, o filme acompanha o dia a dia das prisioneiras do Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa, uma antiga instituição em São Paulo que abrigava lactentes. Entre elas, e como personagem principal do filme, está Daluana, uma traficante que já esteve presa e amamentou duas vezes atrás das grades, entre 2000 e 2010.

Enquanto trocam fraldas e amamentam, essas mulheres conversam sobre a vida antes da cadeia e as dificuldades de ser mãe e detenta, principalmente depois que o período para ficar com o bebê acaba. Quando não há um familiar para cuidar das crianças, elas são encaminhadas para orfanatos e muitas vezes adotadas sem a permissão ou mesmo o conhecimento das mães, como relata uma das presas.

Mas nem tudo é sofrimento para essas mães. Enquanto algumas concordam que é muito ruim ter um filho na prisão, uma delas conta que a experiência a transformou em uma mãe melhor. “Eu acho que se eu não tivesse vindo presa grávida eu estaria nas ruas, e já tava tudo planejado, eu ia deixar uma pessoa cuidando da minha filha para continuar fazendo coisa errada. Minha filha ia estar na mão dos outros, jogada. Então pra mim foi uma experiência que eu vou carregar para sempre.” Depois de assistir ao documentário, conte para a gente o que achou!

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Xico Sá comenta sobre o filme

“Leite e ferro”: a falência do macho

Por Xico Sá

São muitos os momentos em que o homem é fraco como macho, parceiro, marido, amante etc. Mas em uma ocasião, em especial, essa fraqueza masculina desonra de vez as calças e põe a nu a mais pura covardia amorosa.

É quando a mulher é presa, detida, encarcerada.

O marido some.

Nada de visita.

Mesmo que ela carregue na barriga um filho com o seu sangue.

Um filho condenado desde o ventre, um Raskolnikov involuntário no presídio feminino do Complexo Penitenciário do Carandiru.

“Leite e Ferro”, documentário da diretora Claudia Priscila que estreou hoje no cinema em SP, revela essa falência do macho ao narrar a rotina de detentas que geraram seus meninos em um presídio.

O leite de uma amamentação vigiada, o ferro da punição, em muitos casos, injusta. O homem que se ausenta, o Estado-macho presente para vigiar e punir da forma mais perversinha. Escrota é a palavra.

Bebê no colo, uma mãe presidiária recorda a crueza de um policial desmamado:

“Você está grávida, amarrada a uma grade no chão frio? E eu com isso, quem mandou você abrir esse bucetão?”

Mesmo com um tema tão cruel, o filme consegue, com extrema delicadeza, tratar da ausência de carinho dos homens, como se as mulheres não esperassem por isso mesmo.

O cara em fuga e o homem-da-lei do Estado a dizer, qual um Luiz XIV de França, “o macho c´est moi”, o macho sou eu.

Você, amiga, que se espantou ao ler recentemente sobre grávidas algemadas durante o parto em São Paulo –a dor da gente às vezes sai no jornal!- terá no filme mais um documento que prova a crueldade como método permanente, não apenas um caso isolado.

A excelente reportagem de Eliane Trindade, na versão impressa da Folha, junta-se ao documentário de Cláudia Priscila como marcos sobre a indecência dos homens, sempre com uma quedinha para o medievalismo, mesmo no ano da graça de 2011.

“Leite e Ferro” está em exibição no Unibanco Arteplex Frei Caneca (sala 4) em dois horários: 15h e 20h20. O cronista recomenda.

Matéria: Governador de SP manda apurar uso de algema em parto

ROGÉRIO PAGNAN
ENVIADO ESPECIAL A ITU (SP)
GIBA BERGAMIM JR.
DE SÃO PAULO

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), mandou abrir uma investigação interna para apurar as denúncias de que presas foram humilhadas durante o parto.

Ao anunciar a decisão, ontem (22), ele disse que que haverá punições se as denúncias forem comprovadas.

Como a Folha revelou, presas grávidas dizem ter sido mantidas algemadas durante o parto. Outras dizem que tiveram as canelas acorrentadas mesmo quando caminhavam com o bebê no colo. Funcionárias de dois hospitais públicos confirmam os casos.

A Defensoria Pública, que prepara ações por danos morais contra o Estado, tem oito depoimentos formalizados relatando essas humilhações.

Ontem, o Ministério Público Estadual instaurou inquérito para investigar a denúncia. O responsável pelo caso será o promotor Eduardo Ferreira Valério, da Promotoria de Direitos Humanos.

*HUMANIZAÇÃO *

“A algema existe para evitar fuga e para proteger quem conduz os presos. À medida que a parturiente chega ao hospital, ela está sob responsabilidade médica”, disse Alckmin, que é médico.

“Se aconteceu, será apurado. A orientação do governo é sempre ter humanização nesse tipo de atendimento.”
Alckmin disse que há unidades prisionais sem grades onde as presas recebem visita dos filhos. Segundo ele, as crianças “nem percebem que estão numa cadeia”.

Segundo ele, até “metade do ano que vem”, São Paulo vai zerar o número de presas em cadeias públicas.

Na semana passada, ao comentar pela primeira vez as denúncias, o secretário da Administração Penitenciária, Lourival Gomes, contestou.

“É como se elas estivessem na rua. Têm o tratamento necessário. Melhor até do que o que muitas recebem lá fora.”

Procurado novamente desde sexta, Gomes não atendeu a Folha. Ontem, a secretaria enviou nota dizendo que “jamais concordou com a utilização de algemas no período de parto” e, por isso, apura as denúncias.

Diz ainda que alertou coordenadores de prisões para que não permitam o uso de algemas em parturientes.

Evento: Folha promove sessão gratuita do documentário “Leite e Ferro”

Folha e o Cine Livraria Cultura promovem na segunda-feira, dia 21, às 20h, a pré-estreia gratuita do documentário “Leite e Ferro”, de Claudia Priscilla.

A produção brasileira de 2010 aborda o universo das mulheres presas que amamentam os filhos na cadeia.

Após a sessão, a diretora debate com o cineasta Francisco Cesar Filho. As senhas podem ser retiradas na bilheteria (av. Paulista, 2.073), a partir das 19h no dia do evento.

Documentário "Leite e Ferro" de Claudia Priscilla

 

Matéria: Presas em São Paulo dizem ter que dar à luz algemadas

18/11/2011 - 08h22

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

E.R., 28, foi presa quando estava no sétimo mês de gestação. Cumpria pena de 12 anos de prisão no Centro Hospitalar Penitenciário, uma das unidades que funcionam no antigo Complexo do Carandiru, quando sentiu as primeiras contrações.

Escoltada até o Hospital de Vila Penteado, na zona norte de São Paulo, ela foi submetida a uma cesariana. “Algemaram meus pés no aparelho ginecológico, tiveram que fazer cesárea, mas a médica não pediu para retirar as algemas”, disse E.

A prática de manter parturientes algemadas durante o parto foi confirmada em pelo menos dois hospitais públicos de São Paulo, informa reportagem de Eliane Trindade, publicada na Folha desta sexta-feira (a íntegra está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).

A Pastoral Carcerária recebeu nos últimos meses denúncias de que pelo menos seis presas permaneceram algemadas durante o parto. “Não há justificativa para usar algemas no parto, além de torturar e estigmatizar ainda mais as presas”, afirma Rodolfo Valente, advogado da Pastoral Carcerária.

OUTRO LADO

O secretário de Administração Penitenciária do Estado, Lourival Gomes, afirma desconhecer o uso de algemas no parto. “Não acredito nisso. É um absurdo.”

Segundo ele, não existe regulamentação determinando que a mulher tenha de ficar algemada durante o parto. “Quando se chega ao hospital com uma presa quem vai dizer o que fazer é o médico”, defende-se o secretário.